sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ai! Ai! Ai! Que suspiro!...

Este é o relato de um enorme suspiro. Um suspiro de alivio depois de me ver livre de uma trapalhada restaurativa numa das últimas propostas do Chef do mesmo nome. Provavelmente todos conhecemos a figura rubicunda e atarefada do Chef Luís Suspiro, desdobrando-se continuamente na sua omnipresença restaurativa de variadas declinações, das mais sérias e mais ordeiras, às mais veraniegas e espraiadas. Esta 'estória' aconteceu ali por em torno do Campo Pequeno, bem no centro da cidade, na última (enfim, no sentido, da 'mais recente'...) aventura do Chef Suspiro, na esplanada 'Portugalidade'.

Não comento - nem reproduzo - o acerto com que um dos comensais - eramos quatro - comentava o duvidoso gosto, 'proto-marialva' e 'nacionalista', dos ditos que grafitavam as paredes do restaurante. Enfim, sempre estávamos na esplanada onde esses escritos não impunham a sua presença, nem o seu dislate, apesar de se insinuarem, numa combinação algo incoerente, com a liguagem meio infantil, meio efeminada, profusamente usada na ementa - que é, só por si, um monumento ao espítito seu autor...

Perante a vontade dos quatro comensais fazerem uma espécie de menu de degustação - atrapalhação geral perante a ideia: 'que não servimos senão às doses', 'que não empratamos de modo diferente', etc. Tudo bem. Finalmente, lá conseguimos convencer o atarefado moço que servia à mesa que nos poderiamos servir, sucessivamente, dos quatro pratos, desde que não os trouxesse todos ao mesmo tempo.

Primeiro prato, entrada, carapaus alimados com salada montanheira - em honra à minha recente transferencia algarvia. Veio a salada, supostamente montanheira, onde pontificava o tomate demasiado grande e sobrava um toque a mais de vinagre. Mas, a primeira surpresa, foi a completa ausência dos carapaus. Alimados ou não, faltavam de todo! Ainda procurámos com esperança por baixo dos enormes pedaços de tomate, mas nada. Esperámos alguns minutos, forçando a conversa, que o esquecido moço nos trouxesse o peixe. Quando, já meio irritado inquiri sobre a tão bizarra ausência do ingrediente principal daquele prato, o moço responde-me com uma candura desarmante que o cozinheiro o tinha informado que naquele dia não havia carapaus na praça e, por isso (lógica irrepreensivel!) não os podiam servir com a salada...
Entre os quatro comensais olhámos para o rapaz e olhámos uns para os outros, incrédulos, perante o que acabaramos de ouvir. Desculpe ?! Pode repetir ? E o cândido, repetiu - palavra por palavra - sem se dar conta da enormidade do que dizia e do que o cozinheiro lhe teria dito. Portanto, não havia mesmo erro: serviam apenas 'meio prato', porque o principal faltava... Claro que o moço não soube responder se um dia faltasse o bacalhau, se continuariam a servir a meia desfeita só com grão, salsa e cebola, ou se o ovo continuaria a ser 'a cavalo' no caso do bitoque ter falta de comparência...
Um primeiro grande Ai! Muito suspirado.


Já de pé atrás com as explicações do carapau desaparecido, démos-lhe uma hipótese de redenção com os pasteis de massa tenra. Outra contrariedade: o cozinheiro manda dizer que a dose são dois e não pode servir mais nem fazer pasteis mais pequenos para servir uma unidade a cada um dos quatro comensais. Depois do que se passara, no minimo esperariamos uma dose extra de pasteis, com todas as desculpas do mundo. Mas, qual quê ! Este 'cozinheiro' e o seu temeroso porta-voz que nos servia, insistia na falta de cortesia: Se quiserem quatro pasteis pagam duas doses (diga-se, em abono da verdade, que a esplanada estava cheia, o que pode ter contribuido para o desnorte do pessoal, a menos que se trate de um subtil artificio para afastar clientes mais exigentes...).
Os pasteis lá vieram e foram apreciados por todos. A meu ver o recheio tinha, no puxado, excesso de tomate e chouriço - e as migas que os acompanhavam estavam um tanto aguadas.
Outro Ai! Ainda que um pouco menos suspirado

Seguiram-se dois pratos estufados, ou guisados, que não me impressionaram grandemente, nem para o bem, nem para o mal. Recordo vagamente que eram, ambos, demasiado parecidos apesar de um ser coelho e outro cabrito, adocicados e demasiado saboridos - possivelmente não foram pensados para serem comidos em sucessão, num menu tipo degustação. Aí fomos penalizados pela nossa escolha - sendo certo que ninguém nos soube avisar disso antes - e muito menos tal se esperaria do candido moço que nos servia.

Lá para o fim da refeição aparece, simpático e atarefado, o nosso inefável Chef: Então ? Gostaram ? Estava tudo bem ? Após uma sumária descrição do sucedido, o nosso Chef explode: Faltam os carapaus e não me dizem nada ???? Isto não é possivel !!!! Faltavam os carapaus, improvisa-se alguma coisa !!! Estes tipos ainda me levam à falência! Daqui a dois meses fecho isto! Não consigo encontrar gente competente! Querem que tenha um ataque de coração! E ainda disse algo meio incompreensivel a propósito dos preços serem muito baratos para a qualidade da comida que servia... (seria uma desculpa ? uma justificação ? um desabafo ?)

Tudo em grandes berros e gesticulação dramática. Todas as mesas se aperceberam do que se passara e, mais, todos os esforçados empregados de mesa, agora tremiam perante o seu chefe-ainda-mais-patrão-que-o-cozinheiro.

Por acaso - diria por distração e certamente não por esquecimento ou desleixo - o Grande Chef embora desculpando-se com a incompetência alheia - que neste caso também era a própria por dever de ofício - não teve uma palavrinha simpática de desculpas perante as vitimas principais daquela sucessão de disparates.
Um Ai! Muito, muito suspirado.

Mas, dulcis in fondo, o 'melhor' ainda estava para vir. Quando chegou a conta, verificámos com surpresa que afinal estava lá tudo: o primeiro prato com os carapaus, as duas doses de pasteis (e tudo o mais, certinho). Peguei na conta com dois dedos e devolvi-a ao esforçado moço nos atendia: disse-lhe apenas que lhe daria uma única oportunidade para corrigir a conta, atendendo ao que tinha corrido mal naquela refeição. Que falasse com o temido cozinheiro, ou com o irascível Chef-patrão, mas que 'tratasse do assunto' - antes de pedirmos o livro de reclamações.
O empregado suava e contorcia as mãos: 'Não é justo! Por favor, diga-me o que acha que deve ser corrigido...Dê-me uma dica! Por favor, dê-me uma dica! (sic)'

No final lá apareceu uma conta corrigida (tiraram o valor de uma dose de pasteis e meio valor dos carapaus...). Ainda assim superava os 100 euros, o que, há que convir, não será muito para uma refeição de quatros pessoas com vinho (o excelente Alvarinho Quinta do Soalheiro 2008), mas é demais para tanta trapalhice.

Um grande Ai! de alívio por, finalmente, nos irmos embora, que não havia paciência para aguentar tantos disparates!

Em jeito de moral da 'estória' : os nossos restauradores - mesmo os mais conhecidos - ainda têm muito que aprender quando se trata de receber os clientes. Tanto eles como os seus colaboradores. Neste episódio omiti alguns outros pormenores, mais ou menos tristes, por economia de espaço (e por que me esforço por esquecê-los), por exemplo, o interminavel tempo de espera entre pratos, o tratamento só superficialmente profissional dos empregados que confundem arrogância e correria com eficiência, o pior: o indesculpável 'passa-culpas' do patrão para os empregados e destes uns para os outros, remantando com a falta de senso e de sentido de negócio de todos que, para facturarem mais uns 10 ou 20 euros naquela refeição, correm o risco de, muito provavelmente, perderem quatro clientes para sempre.

Certamente não leram o 'Negocios à Mesa', de Danny Mayer. Uma leitura que recomendo vivamente ao Chefe Suspiro - e a outros - bem como a todos os seus esforçados colaboradores que servem à mesa nas esplanadas do Campo Pequeno (e em todas as outras esplanadas e restaurantes deste país).

6 comentários:

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Tive semelhante experiência noutro "suspiro-restaurante" supostamente dedicado a comidas ribatejanas, também sito na Praça de Touros de Lisboa.

Um quase desastre!

NOG

Rafael Lucas Pires disse...

Caro Nuno, ainda estou a rir com a "tragédia" da "portugalidade"... nem por acaso, almocei hoje na "Tasca da Esquina" (do Chef Vítor Sobral) e na mesa ao lado lá estava o Famoso Suspiro, com pose de cliente exigente...

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Pois é, imagino a pase...

Pelo menos temos a boa portugalidade do Sobral, que é uma das que mais gosto (sempre achei as criações dele muito nacionais).

Um ab.

NOG

. disse...

Ambos esses dois restaurantes dele apresentam um péssimo serviço. O Torricado tem uma porta de acesso aos wc´s que parece o portão da quinta. Infelizmente fiquei sentada lá e aquilo era um vai e vem de pessoas, a porta não tinha sequer uma mola e estava sempre aberta. Uma visão e tanto!! O serviço era horroroso. Não serviam as pessoas ao mesmo tempo, uma pessoa da minha mesa teve que desistir e começar a comer sozinha, não tiravam os pratos das entradas, a não ser que pedíssemos. Para eles era suposto eu ir comer no prato das entradas. O vinho estava quente. Péssimo. Acho que mais valia ele abrir o Condestável outra vez porque até hoje nenhum outro o superou. Que saudades do Condestável (apesar do menu de degustação ser um bocado enfarta-brutos)!

Carla

. disse...

Ontem estive no "Portucalidade". Já levava as expectativas baixas, pelo que amigos me contaram e pelo que vou lendo na blogosfera. Ainda assim foi muito melhor que no Torricado, apesar de não ter ficado lá muito satisfeita na mesma. A decoração é completamente incoerente com a cozinha apresentada. Os mesmos menus de tamanho assustador (acredito que aqueles menus já tenham partido muitos copos), a decoração do ambiente é fria e demasiado moderna para o tipo de cozinha que apresenta. A carta de vinhos é lastimável. Tanto vinho bom dentro dos preços que ele cobra... não entendo. A determinada altura aparece-me a comida, cujos acompanhamentos vêm numa caçarola(tacho) e são colocadas sobre o tampo de vidro. Tudo bem, não estavam muito quentes, mas não tem um mínimo de lógica. Aquela decoração não é minimamente consistente.

Com tanta mesa vazia reservaram-nos uma onde ficámos super apertados em cima de outros 3 clientes que lá estavam. O restaurante além desses outros clientes estava vazio! Para finalizar mais uma vez a comida não veio toda ao mesmo tempo. Estiveram duas pessoas 5 minutos à espera que aparecesse o prato da terceira pessoa. Tirando isso, a comida é boa, sem ser excepcional. Mas só isso não basta para se darem ao luxo de cobrar o que cobraram (30€ por pessoa c/ vinho e s/ sobremesa).
Carla

Anónimo disse...

Nao posso concordar com algumas das criticas aqui descritas porque a vasta clientela que os restaurantes teem diariamente nao pode ser assim tao mau e facil contudo criticar sempre alguem que tenta fazer algo por este pais e eleva-lo decerto que estes comensais sao mais do tipo do deita abaixo a torto e a direito.